Resenha – A Chave Dourada

MACDONALD, George. A Chave Dourada. Trad. Letícia Campopiano. Içara/SC: Dracaena. 2012. 50 p.

George MacDonald nasceu em 10 de Dezembro de 1824 em Huntly, Escócia. Faleceu em 18 de Setembro de 1905 em Ashtead, Inglaterra. MacDonald foi escritor, poeta e pastor na Trinity Congregational Church, Inglaterra. Embora muito esquecido pelos leitores atuais, suas obras, especialmente seus romances de fantasias e contos de fadas, foram uma inspiração para muitos escritores notáveis, como G. K. Chesterton, J. R. R. Tolkien e Mark Twain. Ele foi amigo e mentor de Lewis Carroll e chegou a incentivá-lo a publicar Alice no País das Maravilhas. Outro autor que foi grandemente inspirado por ele foi C. S. Lewis, que por diversas vezes declarou publicamente ter grande inspiração por seu mestre para escrever livros como “As Crônicas de Nárnia”. Enfim, George MacDonald publicou dezenas de contos, que o tornaram conhecido e amado por crianças e adultos. Ele mesmo chegou a dizer certa vez: “Eu não escrevo livros infantis, mas escrevo para todas as crianças, sejam ela de 5, 50 ou 75 anos.”

A Chave Dourada é um dos trabalhos mais importantes do escritor George MacDonald. O livro trata de um conto de fadas, e quando se fala em conto de fadas, para certos grupos de leitores pode haver uma certa rejeição, mas nos de MacDonald primam ensinamentos cristãos, nesse livreto de 50 páginas apenas podemos conhecer o estilo literário do autor.

No presente livro é apresentado a aventura de dois adolescentes Trama e Musgoso que empreendem uma busca especial, achar a fechadura feita especificamente para a chave dourada que Musgoso encontra. No mundo onde os dois personagens estão inseridos é diferente do mundo que conhecemos; por exemplo, vários anos são necessários para completar eventos que levam apenas minutos. Durante a busca os dois adolescentes se separam (creio que o leitor saberá identificar a causa da separação), Trama encontra vários guias que a dirigem através de uma sucessão de passagens rochosas, incluindo uma que leva às entranhas da terra. No fim, como todo bom conto de fadas, eles são bem sucedidos em sua busca.

Neste pequeno livro, MacDonald concebe uma aventura que nos proporciona muitos ensinamentos cristãos, temos uma visão da vida familiar entre os dois personagens. Quando Trama é orientada pela Avó a seguir Musgoso, a princípio há uma resistência, mas logo não há remorso em acompanhá-lo. E como eles vão ficando mais belos ao longo dos anos.

Temos o banho na banheira que nos remete ao batismo. A morte como um rito de passagem para uma nova vida, portanto, não é precisa temê-la. A chave dourada que abre a porta para o Paraíso. É possível que todos tenham a chave, mas ainda não encontraram a fechadura. O caminho a ser percorrido por vezes se apresenta encantador e com muitas sombras no percurso, é bom já captarmos a ideia de que a vida ao nosso redor são sombras de algo superior, portanto devemos continuar determinados em nossa caminhada.

Leitura muito fácil e estimulante, li em duas horas, aproximadamente. Com certeza, recomendo a leitura para todos, não importa a idade. Até mesmo para pais que desejam ler para os seus filhos, seria uma leitura bastante prazerosa. É um conto de fadas, então pode-se achar múltiplos significados na história. É uma pena que os livros de George MacDonald raramente sejam traduzidos para o português. Ele, sem dúvidas, foi um grande escritor.

 

O Rei Leão

“O Rei Leão” talvez seja um dos melhores filmes que a Disney já produziu na sua história. A primeira vez que assisti a trilogia, eu ainda era criança, e posso confessar que fiquei emocionado em algumas cenas: sem dúvida, a cena que mais marcou foi a morte de Mufasa, o pai de Simba.

Diante do lançamento do filme “o Rei Leão Live Action”, lançado no mês e ano correntes (18 de Julho de 2019), resolvi assistir novamente a trilogia para depois assistir o lançamento. Como disse antes, a última vez que assisti, creio que tenha sido há mais de 20 anos. Porém, desta vez, com conhecimento bíblico mais sólido do que 20 anos atrás, pude destacar cenas que, a princípio, são recebidas como inocentes e inofensivas, mas não são.

O objetivo deste artigo não é criticar o filme, longe disso, sou fã do mesmo. Mas, desejo chamar sua atenção para alguns pontos de perigo que o filme trás e assim, ficarmos em alerta. Destaco três pontos:

 
1. Espiritismo
 

Quando Mufasa é assassinado pelo próprio irmão, Scar, Simba se sente culpado e ainda por cima seu tio joga toda a culpa nele e o aconselha a fugir para nunca mais voltar (claro, Scar tinha a intenção de assumir o trono). Simba foge carregando sentimento de culpa e vergonha. Depois de anos, sua amiga de infância, Nala, reencontra-o e implora para que ele volte pois Scar está sendo um rei terrível. Simba rejeita veementemente, mas sem dizer o motivo, até que Rafiki, (o macaco macumbeiro, como chamo), encontra Simba e o conduz para uma conversa com o espírito de Mufasa.
Neste ponto, encontramos a presença de espiritismo no filme. Alguém pode dizer: pra quê esse exagero? Isso é só um filme infantil! Mas, esse é exatamente o perigo. Sei que pode parecer inocente e inofensivo, mas não é, e quero desenvolver duas razões:
(1) A cena nos induz a pensarmos que os nossos entes queridos que já partiram estão olhando por nós e eles mesmo podem surgir para nos orientar e socorrer em tempos de angústias, dúvidas e tristezas, o que é totalmente contrário à verdade das Escrituras: “Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem” (I Timóteo 2:5).
(2) A cena nos convida a olharmos para o contato com os mortos com um olhar mais aceitável e amigável, pois a cena é emotiva e encorajadora. Pense um pouco, Simba está falando com seu pai novamente depois de anos, especialmente em um momento crítico de sua vida. Isso, com certeza, trás a sensação do desfrutar da presença de um indivíduo cuja ausência trás dor e pesar. Assim, nos leva a uma sensação de encorajamento e bem estar. Porém, é contrário à verdade da Palavra de Deus. “Quando vos disserem: ‘Procurem um médium ou alguém que consulte os espíritos e murmure encantamentos, pois todos recorrem a seus deuses e aos mortos em favor dos vivos’, respondam: ‘À lei e aos mandamentos!’ Se eles não falarem conforme esta palavra, vós jamais verão a luz! (Isaías 8:19-20).
A Palavra de Deus nos ensina que o contato com os mortos é impossível pois, após a morte, os mortos não têm contato com as pessoas da terra e vice-versa. Assim, o contato com os mortos é fruto do pai da mentira, que aproveita a dor e a falta de esperança das pessoas para as conduzir ao erro “…Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (João 8:44).
Gostaria que notasse que não é algo inocente, é perigoso. Pois uma cena emotiva pode nos fazer olhar para o espiritismo como algo nada ofensivo. Na parábola do Rico e Lázaro, Jesus ensinou a impossibilidade dos mortos se comunicarem com os vivos quando não permitiu a um homem morto voltar aos seus irmãos vivos, nem mesmo para alertá-los sobre o inferno. Os vivos devem ouvir a Palavra de Deus, representada por Moisés e os Profetas.

 
2. Hakuna Matata
 

Após a morte do pai, Simba foge e encontra-se com dois personagens: Timão e Pumba, os quais se tornam bons amigos. Os dois ensinam uma filosofia de vida para Simba, conhecida como “Hakuna Matata” (Sem problemas) – “Os seus problemas, você deve esquecer, isso é viver, é aprender, hakuna matata”.
Mas o que há de perigoso nisso? Se nossa filosofia de vida não for baseada em filmes, séries e moda, então, tudo bem. Contudo, a Bíblia nunca nos manda esquecer os problemas, pelo contrário, ela nos exorta a encará-los e lançá-los sobre Jesus, como também todos os nossos cuidados, aflições, tristezas e ansiedades.
É impossível viver a vida esquecendo dos problemas. Esquecer dos problemas é viver irresponsavelmente. Nossas ideias têm consequências (ação e reação). Uma escolha errada conduz a uma consequência amarga. Mas, se minha filosofia for hakuna matata viverei irresponsavelmente sem dar a mínima para as consequências. “Errando enquanto o tempo me deixar passar” (Kid Abelha).
Infelizmente, convivemos com uma geração de homens-meninos. Homens na idade, mas meninos quanto às responsabilidades. É triste constatar que hoje encontramos indivíduos cada vez menos responsáveis. Não é exagero, mas observe quantos já entraram nas drogas e alcoolismo com o desejo de fugir da realidade. É impossível fugir da realidade. Após o efeito da droga ou do álcool (que também é uma droga), a realidade estará lá, porém com mais um agravante.
Deus nos exorta a não fugirmos ou esquecermos dos problemas, mas a encará-los buscando a solução, com uma vantagem, podemos colocar sobre Jesus Cristo aquilo que nos aflige. “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós” (I Pedro 5:7). Os incrédulos, não tem essa esperança e por isso se apegam a algo vazio que os levará para um buraco cada vez mais profundo.
“Hakuna Matata é lindo dizer”, mas não é verdadeiro, Deus nos ensina através do apóstolo Paulo que devemos ocupar nossa mente com tudo o que é verdadeiro.

 
3. Prisão do Casamento
 

Na cena onde Simba reencontra sua amiga de infância, Nala, surge um clima entre os dois e envolvem-se em uma música romântica.
Neste ponto, o que quero destacar é Timão e Pumba, os dois ficam insatisfeitos com o romance de Simba e Nala e sabem que ficaram sozinhos novamente.
No final da música a fala dos dois dá a impressão de que o casamento é algo negativo, onde se perde a liberdade. Na versão original, em inglês, a fala deles é: “His carefree days with us are history, in short our pal is doomed”, algo do tipo: “seus dias despreocupados conosco são história, resumindo, nosso amigo está condenado” (doomed – sentenciado, condenado). Na dublagem para o português fica: “sua liberdade está quase no fim, domado está o leão”.
Assim, em ambas as versões, a ideia passada é que o casamento tira a liberdade, como uma espécie de prisão. Porém, a Palavra de Deus nos ensina que é no casamento onde se encontra a liberdade. Liberdade em vários aspectos: no companheirismo, fidelidade, confiança e intimidade. A não ser que você tenha a convicção do dom de celibato, nesse caso, o casamento seria uma prisão.
Apesar do mundo ensinar que o casamento tira a liberdade, é na fase de solteiro onde o indivíduo não tem liberdade. Penso que a concepção do mundo a respeito de liberdade seria “fazer tudo o que der na telha” ou “se permitir”, mas isso é prisão e não liberdade. Por exemplo, o pardal, por mais livre que seja, nunca passa por sua cabeça o desejo de nadar no oceano. Da mesma forma o peixe, com a liberdade de todo o oceano, nunca passa pela sua cabeça o desejo de voar. Para os dois, a execução de qualquer um desses desejos significa morte.
Para o mundo o casamento tira a possibilidade das várias opções de relacionamento físico com quem desejar. Porém, o relacionamento físico com quem se desejar, fora do casamento não traz satisfação, muito pelo contrário, traz frustração, vazio, solidão, tristeza, desprestigio e doença. O que para o mundo é chamado de liberdade, para Deus se chama morte.
É no casamento que encontramos liberdade. No primeiro casamento Deus disse: “Por isso, deixa o homem pai e sua mãe e se une a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne“. (Gênesis 2:24).
 
Enfim, esses são os pontos que desejei desenvolver, não para desprestigiar o filme, mas para que possamos assisti-lo com um olhar mais atento quanto ao mundanismo que traz e apegando-nos cada vez mais as verdades das Escrituras.

Resenha – Depressão e Transtorno Bipolar

HODGES JR, Charles D. Depressão e Transtorno Bipolar: Ajuda e esperança para o enfrentamento eficaz. Trad. Samuel Fernandes do Nascimento Jr. / Lohana Pontes Machada. Eusébio/CE: Peregrino. 2015. 192 p.

Charles D. Hodges Jr, médico de família que atua em Indianápolis, Indiana, EUA. Graduado pela Indiana University School of Medicine, Liberty University e Liberty Baptist Theological Seminary em: medicina, aconselhamento e religião, também é doutor em medicina. É certificado em medicina da família, Geriatria e é terapeuta familiar licenciado. Dr. Hodges, ensina e aconselha no Ministério de Aconselhamento Bíblico do Faith Seminary (EUA) e ensina matérias médicas de aconselhamento bíblico pelos EUA e pelo mundo. Hodges é casado com Helen há mais de 40 anos, tem 4 filhos e 12 netos.

Depressão e Transtorno Bipolar, obra que examina se estamos em uma epidemia, ou se temos simplesmente um mal diagnóstico de tristeza comum como sendo depressão. O interesse do autor ao escrever a presente obra, era tratar de transtorno bipolar na intenção de explicar o explosivo crescimento do número de pessoas com este diagnóstico. A pesquisa atual na comunidade médica parece indicar que os critérios que usamos para diagnosticar a depressão resultaram em um crescente e incorreto rótulo de tristeza comum como depressão. Embora o tratamento médico seja a maneira comumente mais aceita de lidar com a dor e a tristeza, sua promessa de cura não foi cumprida. Em Depressão e Transtorno Bipolar: ajuda e esperança para o enfrentamento eficaz, o Dr. Hodges procura oferecer uma explicação para ajudar o leitor a ver a importância da tristeza e a esperança que Deus nos dá em Sua Palavra.

O livro é composto por 15 capítulos e dois apêndices. Os capítulos 1-3 abordam a leitura que a nossa sociedade faz da depressão e examinam as dificuldades com a forma dos diagnósticos feitos em nossos dias. Aparentemente, todos os envolvidos no tratamento da depressão concordam no que diz respeito à suas causas e cura, mas a pesquisa do Dr. Hodges revela muito desacordo neste campo.

Nos capítulos 4-5 o autor examina como a tristeza tem sido confundida com depressão. Como resultado, toda tristeza decorrente de perdas acaba sendo rotulada como depressão. Esta mudança significativa também foi devidamente documentada. Se toda tristeza decorrente de perda devesse ser tratada como depressão, estaríamos falando de uma epidemia!

Nos capítulos 6-13 Dr. Hodges considerou a esperança que Deus nos oferece em Sua Palavra, quando temos que enfrentar conflitos e tristeza. Angústia, ira, preocupações, são problemas para os quais a Bíblia oferece respostas. Nesta parte do livro, o autor usa casos individuais para considerar tais problemas.

Nos capítulos 14-15 o foco passa a ser o transtorno bipolar e as formas de ajudar as pessoas com este diagnóstico. Neste ponto, o autor argumenta que antidepressivos usados no tratamento para pessoas com tristeza comum rotuladas com depressão podem gerar comportamentos que apontam para um diagnóstico de transtorno bipolar. É possível que os tratamentos para depressão com medicamentos possam ser a causa de muitos sintomas que apontam para o transtorno bipolar. Em vez de tratar uma nova doença, talvez esteja tratando os efeitos colaterais do medicamento da doença anterior.

A leitura do livro em destaque foi bastante edificante e esclarecedor, apesar de muitas informações médicas, o autor escreve de maneira simples e usa diversos casos individuais que acaba tornando a leitura muito prática e de fácil compreensão. Sem sombra de dúvida esse é um livro que deve ter em sua estante, por duas razões: (1) Explosão de diagnósticos de depressão; (2) Conhecimento do assunto para um possível aconselhamento bíblico.

Existe um pecado que preciso confessar. Já havia visto esse livro em alguma livraria online, mas de primeira descartei a possibilidade de comprá-lo, apesar de ter interesse no assunto de depressão, recusei o livro por causa da capa. Sim, pequei em julgar o livro pela capa. Mas, lendo o livro vi o quanto ele é bom. Vale muito a pena lê-lo. Então, se você alguma vez cometeu o mesmo pecado que eu, confesse-o e deixe e leia o livro.

 

“A lei do SENHOR é perfeita e restaura a alma.
Os preceitos do SENHOR são retos e alegram o coração.

(Salmo 19:7-8)

 

Resenha – As Controvérsias de Jesus

STOTT, John. As Controvérsias de Jesus. Trad. Valéria Lamim Delgado Fernandes. Viçosa/MG: Ultimato. 2015. 199 p.

John Robert Walmsley Stott, mais conhecido como John Stott. Nasceu na cidade de Londres no dia 27 de Abril de 1921 e faleceu em Julho de 2011. Stott foi pastor e teólogo anglicano, conhecido como um dos grandes nomes mundiais. Serviu como pastor na Igreja All Souls em Londres desde 1950. Estudou na Trinity College Cambrigde, onde se formou em primeiro lugar da classe tanto em francês como em teologia, e foi doutor honorário por várias universidades, na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Uma de suas maiores contribuições internacionais são seus livros. Stott começou sua carreira de escritor em 1954, publicando mais de 40 livros e centenas de artigos, além de outras contribuições à literatura cristã. Sua obra mais importante, Cristianismo Básico, vendeu mais de 2 milhões de cópias e já foi traduzida para mais de 60 línguas. Billy Grahanm o chamou de “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”.

No livro As Controvérsias de Jesus, John Stott não tem a intenção de mostrar Jesus como uma figura controversa, mas que Ele participava de controvérsias. Grande parte dos discursos públicos de Cristo assumiu a forma de debates com os líderes religiosos da época. O objetivo de Stott no presente livro é afirmar que o cristianismo evangélico é o cristianismo real, autêntico, verdadeiro e original, o autor mostra isso segundo o ensino do próprio Jesus Cristo.

Na primeira seção do livro o autor separa dois capítulos introdutórios, chamados de “Fundamentos”. No primeiro capítulo, o autor defende a busca de uma definição teológica. O mundo não cristão está impregnado do discurso pragmático e, consequentemente, está cansado do modo pouco prático de teologizar usado pela igreja. O mesmo discurso prevalece em algumas áreas da igreja atualmente. Muitos abandonaram a esperança de certeza e de acordos doutrinários. Stott desenterra as raízes dessa hostilidade à definição teológica e argumenta que não devemos abandonar, mas insistir na tarefa.

No segundo capítulo da seção “Fundamentos”, Stott argumenta em favor do cristianismo evangélico. Ele enfatizou a necessidade de um definição teológica e agora insiste que ela deve ser feita de modo evangélico. Seu interesse é a posição doutrinária adotada pelos cristãos evangélicos. As doutrinas que adotamos é conhecida como fé evangélica. Stott acreditava que essa fé é a verdadeira fé de Cristo, como ensinou aos seus apóstolos e como a defendeu dos adversários.

Depois da seção introdutória, o autor desenvolve oito capítulos com controvérsias que Jesus participou com os líderes religiosos da época e um pós-escrito enfatizando que Jesus é nosso Mestre e Senhor e, portanto, o que Ele ensinou e defendeu continua sendo relevante para nossos dias. Listamos os oito capítulos.

1. Religião: natural ou sobrenatural? – A primeira controvérsia que o autor aborda é uma pergunta dos saduceus sobre a ressurreição. Stott enfatiza que essa questão é fundamental para hoje, pois não questiona apenas se a religião cristã é natural ou sobrenatural, mas que tipo de Deus é o do cristão.

2. Autoridade: tradição ou Escritura? – Neste capítulo o autor destaca a controvérsia de Jesus com os fariseus, onde eles censuram os discípulos de Jesus por estarem comendo com a mão por lavar, ou seja, cerimonialmente impuros. Jesus critica os fariseus porque as tradições deles anulavam a Palavra. No capítulo anterior Jesus criticou os saduceus por fazer subtrações das Escrituras, agora Jesus critica os fariseus por fazer acréscimos. Praticas igualmente perigosas.

3. A Bíblia: meio ou fim? – Neste capítulo o autor desenvolve a principal função das Escrituras, pela qual Deus deu ao seu povo. Stott desenvolve mais uma controvérsia de Jesus com os fariseus. “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito, contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.” (João 5:39-40 NVI). É certo que Jesus em vários momentos exaltou as Escrituras, entretanto, Ele também nos alertou para a possibilidade de exaltá-la de forma exagerada a ponto de tornarmos “bibliólatras”, agindo como se as Escrituras, e não Cristo fosse o objeto de nossa devoção. O propósito divino das Escrituras é apontar e levar as pessoas a Cristo.

4. Salvação: mérito ou misericórdia? – Cristo trata deste tema em outra de suas controvérsias com os fariseus. Anteriormente Cristo os acusou de anularem a Palavra de Deus, através das tradições que eles mesmos transmitem. Aqui, Jesus os criticam por serem eficientes em anular a obra divina de redenção, tinham uma confiança exagerada em seus próprios méritos. A crítica de Jesus é expressa explicitamente na parábola do fariseu e do publicano.

5. Moralidade: exterior ou interior? – O que nos deixa limpos ou impuros aos olhos de Deus? Pergunta muito importante e a resposta dada pelos fariseus é muito diferente daquelas dadas por Jesus Cristo. Essa é uma área de controvérsia ainda hoje, assim o autor procura descobrir se a discussão de Cristo com os fariseus, onde eles censuram os discípulos de Jesus por estarem comendo com a mão por lavar, lança alguma luz sobre o debate contemporâneo. Os fariseus eram obcecados com o ritual de purificação – mãos limpas, alimentos limpos, vasilhas limpas. Jesus porém enfatiza que a moralidade é essencialmente interior.

6. Adoração: de lábios ou de coração? – A Bíblia nos diz que que há adorações repugnantes a Deus que Ele as odeia e as rejeita. Nesta controvérsia Jesus critica os fariseus não pela prática da adoração em si, mas contra sua qualidade exterior, seu formalismo e hipocrisia: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:7-8). Neste capítulo o autor desenvolve as características de uma verdadeira adoração.

7. Responsabilidade: afastar-se ou envolver-se? – Neste capítulo o autor desenvolve qual seria a verdadeira responsabilidade da igreja para com o mundo. Que atitude os seguidores de Jesus deveriam ter para com aqueles que não o seguem? Desprezá-los, evitá-los, condená-los? Mais uma controvérsia de Jesus com os fariseus onde eles criticam Jesus por se juntar com pecadores. “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1-2).

8. Ambição: a nossa glória ou a de Deus? – Os motivos ocultos desempenham um grande papel em nosso comportamento. Neste capítulo, John Stott desenvolve mais uma controvérsia, onde Jesus expõe o desejo dos fariseus de receber a glória (aprovação) dos homens e desprezar a aprovação de Deus. Há um grande perigo de cairmos nesse mesmo pecado. O desejo humano pela glória é uma forma séria de pecado, pois nega a Deus sua glória como Criador e Juiz.

As Controvérsias de Jesus. Um livro simples, porém profundo e pertinente. Vivemos em período de pluralismo filosófico no qual sustentar nossas convicções em relação à verdade evangélica está cada vez mais difícil. Dentro do próprio ambiente cristão, a perda da centralidade de Cristo e do conhecimento bíblico é típico dos grandes desafios que confrontam a saúde e o crescimento da igreja.

Ler este livro tem sido animador, pois a imagem popular de um Jesus manso, suave e tranquilo não funciona. Sem dúvida, Jesus foi amoroso, mas não hesitava quando era necessário expor o erro e denunciar o pecado, especialmente a hipocrisia. É claro, isso não é uma justificativa para sairmos por aí debatendo, condenando e apontando os pecados das pessoas, mas, sim devemos nos manter firmes naquilo que Jesus Cristo ensinou e defendeu. O ambiente que vivemos hoje é hostil e paradoxal, financiam milhões na busca pela verdade, mas perseguem os que a proclamam. Diante disso devemos nos manter firmes e defender os ensinamentos de Jesus Cristo.

Portanto, indico a leitura deste livro para todos os cristãos e não cristãos. Leitura bastante edificante! Vale muito a pena lê-lo.

 

Resenha – Por que sou cristão

STOTT, John. Por que sou cristão. Trad. Jorge Camargo. Viçosa/MG: Ultimato, 2004. p 152.

John Robert Walmsley Stott, mais conhecido mais John Stott. Nasceu na cidade de Londres no dia 27 de Abril de 1921 e faleceu em Julho de 2011. Stott foi pastor e teólogo anglicano, conhecido como um dos grandes nomes mundiais. Serviu como pastor na Igreja All Souls em Londres desde 1950. Estudou na Trinity College Cambrigde, onde se formou em primeiro lugar da classe tanto em francês como em teologia, e foi Doutor honorário por várias universidades, na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Uma de suas maiores contribuições internacionais são seus livros. Stott começou sua carreira de escritor em 1954, publicando mais de 40 livros e centenas de artigos, além de outras contribuições à literatura cristã. Sua obra mais importante, Cristianismo Básico, vendeu mais de 2 milhões de cópias e já foi traduzida para mais de 60 línguas. Billy Grahanm o chamou de “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”.

No livro Por que sou cristão, John Stott não tem a intenção de rebater ponto a ponto os argumentos colocados por Bertrand Russell no seu livro, Por que não sou cristão, mas Stott considera que existe uma defesa a ser feita em favor do cristianismo que Russell nem sequer considerou. É verdadeiro que, Por que sou cristão, não é um livro volumoso para um questionador genuíno que queira pensar profundamente sobre as implicações de se tornar um cristão, porém, o autor mostra claramente que a resposta para o paradoxo existente no coração humano e a chave para a verdadeira liberdade só podem ser encontradas em Jesus Cristo!

Assim, John Stott nos dá sete razões porque é um cristão. Cada motivo é desenvolvido em um capítulo.

1. O CÃO DE CAÇA DO CÉU – O autor destaca que o primeiro motivo dele ser um cristão não foi devido a influência dos pais ou por uma decisão pessoal por Cristo. Mas, porque o próprio Jesus o perseguia incansavelmente, mesmo quando Stott fugia dEle. O autor conta que se não fosse por essa perseguição, ele estaria na lata de lixo das vidas desperdiçadas e descartadas. Para sustentar o argumento, John Stott descreve a conversão do apóstolo Paulo e mais três cristãos.

2. AS AFIRMAÇÕES DE JESUS – A segunda razão está no fato de que as afirmações de Jesus são verdadeiras. Nossa cultura pós-moderna, em reação à autoconfiança da modernidade, perdeu todo o sentido de segurança e afirma que não há verdade objetiva. No entanto, as afirmações do cristianismo são, em sua essência, as afirmações do próprio Jesus. Constantemente Ele falava de si mesmo, falava sobre o reino de Deus e dizia que veio para inaugurá-lo. Falava de Deus como Pai e atribuía a si mesmo como o Filho do Pai. Isso coloca Jesus à parte de todos os outros líderes religiosos do mundo. Eles se anulavam, apontando para a verdade que ensinavam, Jesus, ao contrário, se oferecia a seus discípulos como objeto de fé, amor e obediência. Assim, não há dúvida que Jesus acreditava ser o único. Como C. S. Lewis diz: “Um homem que fosse só homem, e dissesse as coisas que Jesus disse, não seria um grande mestre da moral: seria um lunático […] Ou este homem era, e é o Filho de Deus, ou então foi um louco, ou algo pior.”¹

3. A CRUZ DE CRISTO – Eis a razão fundamental do próprio autor, ele diz:

Eu jamais poderia crer em Deus se não fosse pela cruz. É a cruz que dá credibilidade a Deus. O único Deus em quem eu creio é aquele que Nietzsche, filósofo alemão do século 19, ridicularizou chamando-o de “Deus sobre a cruz”. No mundo real da dor, como adorar a um Deus que fosse imune a ela? (p. 67)

Neste capítulo o autor discute principais razões por que Cristo morreu: (1) para expiar os nossos pecados; (2) para revelar o caráter de Deus, e (3) para conquistar os poderes do mal. Em qualquer compreensão equilibrada da cruz, confessaremos Cristo como Salvador (expiando nossos pecados), confessaremos como Mestre (revelando o caráter de Deus) e como vitorioso (vencendo os poderes do mal).

4. O PARADOXO DA NOSSA HUMANIDADE – O cristianismo explica quem eu sou, eis uma razão bastante intrigante. O que significa ser um ser humano? Qual a essência da nossa humanidade? Somente o cristianismo consegue responder essas perguntas em um nível equilibrado, sem ir para o extremo do otimismo humanistas que creem que os seres humanos serão capazes de assumir as rédeas de sua própria história e controlar o próprio destino. Nem ir para o extremo do pessimismo existencialista que creem que embora devamos, encontrar coragem para ser, nada tem significado e no final das contas, tudo é absurdo. Porém o cristianismo de forma realista revela a glória, a vergonha e o paradoxo da humanidade.

5. A CHAVE PARA A LIBERDADE – Liberdade é uma grande palavra cristã. Jesus Cristo é retratado no Novo Testamento como o supremo libertador do mundo. Ele disse que veio libertar os oprimidos (Lc. 4:18) e mais adiante acrescentou: “Se o Filho os libertar, verdadeiramente sereis livres” (Jo. 8:36). Jesus Cristo é a chave da liberdade que a humanidade tanto procura.

6. A REALIZAÇÃO DE NOSSAS ASPIRAÇÕES – O autor destaca que todos os seres humanos possuem vários anseios ou aspirações, os quais só Jesus pode satisfazer. Isso não é apenas uma teoria, é uma afirmação validada por milhões de cristãos. Há uma fome no coração humano que ninguém senão Cristo pode satisfazer. A tese do autor é que o homem possui três aspirações básicas que só Jesus pode suprir: (1) A busca por transcendência; (2) A busca por significado, e (3) A busca por comunidade.

7. O MAIOR DE TODOS OS CONVITES – John Stott conclui o livro com o convite de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados e vos aliviarei” (Mt. 11:28). Todo mundo procura por descanso, paz e liberdade. Jesus nos diz onde podemos encontrar tudo isso. É debaixo do jugo de Cristo que encontramos descanso. É quando perdemos a nós mesmo que nos encontramos. O Filho de Deus se coloca diante de nós nos oferecendo descanso ao nos achegar a Ele. Um convite dessa natureza não deve ser rejeitado.

Por que sou cristão. Um livro simples, de leitura simples e prazerosa, porém profundo. Um livro de natureza biográfico, porém apologético. Como foi dito anteriormente, o livro não abarca grandes questões filosóficas para questionadores que queiram pensar profundamente sobre as implicações de se tornar um cristão, mas o livro contém muito sabedoria prática e argumentos plausíveis quando a credibilidade do cristianismo.

Indico a leitura deste livro para todos os cristãos e não cristãos, tanto para jovens quanto para adultos. Leia este livro com o coração e a mente aberta e deixe ser confrontado com a verdade do cristianismo, onde o próprio fundador disse: “Eu sou a verdade” (Jo. 14:6). O Senhor Jesus ainda continua chamando: “Vinde a mim”, precisamos, apenas, aceitar o seu convite.

“Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo vosso coração” (Jr. 29:13)

Posso dizer: vale muito a pena ler o livro!

 

Resenha – Perelandra

LEWIS, C. S. Perelandra. Trad. Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes, 2011. p 302.

Clive Staples Lewis, ou C. S. Lewis, como é geralmente conhecido. Nasceu em Belfast, Irlanda no dia 29 de Novembro de 1898, e faleceu em Oxford, Inglaterra no dia 22 de Novembro de 1963, uma semana antes de completar 65 anos. Lewis foi professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta e apologista cristã. Durante sua carreira acadêmica, lecionou tanto na Universidade de Oxford como na Universidade de Cambridge. Ficou bastante conhecido por seus escritos de apologia cristã, ficção e fantasia. Dentre suas obras mais conhecidas podemos destacar: As Crônicas de Nárnia, Cristianismo Puro e Simples, Cartas de um diabo ao seu aprendiz, O Problema do Sofrimento, Milagres, etc. Além disso, C. S. Lewis, foi um respeitado estudioso da literatura medieval e renascentista, tendo produzido alguns dos mais renomados trabalhos acadêmicos envolvendo esses temas, destacamos: Alegoria do Amor e A Imagem Descartada. Lewis, foi ateu durante muitos anos e se converteu ao cristianismo em 1929. Essa experiência o ajudou a entender não somente a indiferença como também a indisposição de aceitar a religião; e, como autor cristão, com sua mente incrivelmente lógica e brilhante, seu estilo lúcido, fez dele um grande pensador, escritor e apologista.

Perelandra, segundo volume da trilogia cósmica de Lewis. Os livros foram escritos durante os tensos momentos que antecederam a 2a Guerra Mundial (1938-1945). Perelandra foi publicado pela primeira vez no ano de 1944. A Trilogia Cósmica, é mais voltado para o público adulto, diferente das Crônicas de Nárnia, que apesar de, também ser ficção e fantasia, pode ser apreciado tanto por crianças como adultos.

Perelandra pode ser lida independentemente, mas também é uma sequência de Além do Planeta Silencioso, onde continuamos a acompanhar as aventuras do personagem principal, o filólogo Elwin Ransom, que no volume anterior, ele havia viajado de maneira involuntária para Malacandra (planeta Marte). Porém, nessa nova aventura, o filólogo é “convocado” para uma nova viagem, onde o destino será o planeta Perelandra que para nós seria o planeta Vênus.

A narrativa de Perelandra é feita na primeira pessoa por um dos amigos do Ransom, que no caso seria o próprio C. S. Lewis que se coloca como personagem dentro da história. Esse amigo irá ajudá-lo a se preparar para viagem e que em seguida nos contará tudo o que aconteceu com o filólogo enquanto ele esteve em Perelandra. Pois quando Ransom volta, ele conta tudo ao personagem Lewis que, por sua vez nos conta com detalhes todas as experiências vividas por Ransom em Perelandra.

Em Perelandra, o personagem principal desenvolverá diversos diálogos com uma habitante do planeta, essa personagem será chamada de Dama, e ela é a única mulher naquele planeta. Na verdade, Perelandra é um planeta novo e portanto só existem dois habitante o Rei e a Rainha (Dama). A Rainha se perdeu do Rei e acabou se encontrando com Ransom, onde os dois desenvolvem alguns diálogos e através deles conseguimos extrair conceitos como: o uso da linguagem e seus significados; conceitos de antropologia, o que é o homem, o que define o homem; conceitos da criação, tentação, queda e redenção. Como eu disse a pouco, Perelandra é um planeta recém criado, um paraíso, similar ao que poderia ter sido o paraíso no planeta Terra, antes da queda, é claro. Da mesma forma, Perelandra, um mundo perfeito, também está ameaçada de corrupção (queda), pois, assim como houve um tentador/sedutor na Terra, assim será em Perelandra. As perguntas que nos instiga a leitura são: será que o que é narrado em Gênesis 3 se repetirá em Perelandra? Como será que a Dama resistirá as tentações? Deixo as respostas para você leitor. As respostas para tais perguntas deixo para você encontrar durante a leitura do livro.

Em termos de escrita, fica claro que Perelandra se trata de uma história de ficção e quando Lewis escreve ficção, ele escreve ficção e não teologia, apesar de que, mesmo em seus livros de ficção é possível nos deparar com vários elementos cristãos. Então, para o leitor cristão que está familiarizado com teologia, sem dúvida alguma, durante os diálogos desenvolvido pelos personagens, o leitor reconhecerá alusões a conceitos teológicos.

Quanto a narrativa do livro, Lewis tem o poder de nos colocar não só dentro da história, mas de nos colocar dentro do próprio planeta, nos descrevendo diversos locais e características como a fauna e flora do planeta. Perelandra é um planeta recém criado e nos é descrito um planeta perfeito, novo, e extremamente belo. Através da experiência do humano Ransom, o leitor sentirá uma sensação de deleite contemplando aquele planeta. Como se fosse um de nós que estivesse lá por algum tempo. Lewis coloca Ransom experimentando a verdadeira alegria, prazer e beleza.

Posso dizer que vale muito a pena ler o livro.

 

Resenha – Desafios da Liderança Cristã

STOTT, John. Desafios da Liderança Cristã. Trad. Valéria Lamim Delgado Fernandes. Viçosa/MG: Ultimato, 2016. p 81.

John Robert Walmsley Stott, mais conhecido mais John Stott. Nasceu na cidade de Londres no dia 27 de Abril de 1921 e faleceu em Julho de 2011. Stott foi pastor e teólogo anglicano, conhecido como um dos grandes nomes mundiais. Serviu como Pastor na Igreja All Souls em Londres desde 1950. Estudou na Trinity College Cambrigde, onde se formou em primeiro lugar da classe tanto em francês como em teologia, e foi Doutor honorário por varias universidades, na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Uma de suas maiores contribuições internacionais são seus livros. Stott começou sua carreira de escritor em 1954, publicando mais de 40 livros e centenas de artigos, além de outras contribuições à literatura cristã. Sua obra mais importante, Cristianismo Básico, vendeu mais de 2 milhões de cópias e já foi traduzida para mais de 60 línguas. Billy Grahanm o chamou de “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”.

O livro Desafios da Liderança Cristã é o resultado de quatro palestras dadas por John Stott no ano de 1985 em Quito, Equador, por ocasião de uma conferência para a equipe da International Fellowship of Evangelical Students na América Latina. Nesta obra Stott compartilha 4 tópicos que considera importante a um jovem líder sob o título: “Problemas da liderança cristã”.

1. O Problema do Desânimo – como perseverar sob pressão.

Neste capítulo Stott reconhece que as pressões sobre os líderes cristãos são intensas e por vezes implacáveis e que sem dúvida tais pressões podem os levar ao desânimo. O desânimo é o maior risco ocupacional de crente, pois pode levar à perda da visão e do entusiasmo. Portanto, a pergunta que surge é: Como perseverar sob pressão? Para responder essa pergunta Stott usa textos de II Coríntios 3 e 4. O capítulo 3 revela a glória do ministério cristão, mas o capítulo 4 mostra os problemas do ministério. Por causa da glória do ministério e a despeito dos problemas, Paulo diz duas vezes no capítulo 4:1;16: ouk enkakoumen “nós nos recusamos a ficar desanimados” pois o ministério é pelo poder de Deus. Deus, intencionalmente, muitas vezes nos mantém na fraqueza para que Seu poder possa repousar em nós.

2. O Problema da Autodisciplina – como manter o frescor espiritual.

O segundo problema muito comum nos líderes cristãos não é tanto o desânimo, mas a estagnação. Em meio a todas as pressões que sofremos, como podemos manter o frescor espiritual? Neste capítulo o autor afirma categoricamente que a raiz da estagnação muitas vezes seja a falta de disciplina. Neste ponto, Stott irá sugerir três áreas de disciplina que o líder cristão precisa observar: (1) Disciplina do descanso e relaxamento; (2) Disciplina do tempo e (3) Disciplina da devoção.

3. O Problema dos Relacionamentos – como tratar as pessoas com respeito.

É difícil enfatizar suficientemente a importância dos relacionamentos. A vida na terra consiste de relacionamentos. É importante que aprendamos a cultivar bons relacionamentos e o autor nos diz que a base para um bom relacionamento é o respeito e todo ser humano tem seu valor intrínseco. O próximo princípio é tratar o próximo como se fosse o próprio Jesus, tomando por base o texto de Cl. 3:23 “como para o Senhor e não para homens”. O terceiro princípio é demonstrar respeito ao ouvir as pessoas. Fazer uma pessoa se calar ou pedir que ela se cale e se recusar a ouvi-la é tratá-la sem respeito, mas ouvi-la é expressão que reconhecemos seu valor.

4. O Problema da Juventude – como ser um líder quando se é relativamente jovem.

Stott reconhece a dificuldade de ser um líder quando se é relativamente jovem. Muitas vezes os mais velhos os tratam como se ainda fossem crianças. Consequentemente, os jovens muitas vezes ficam irritados e frustrados. O que devem fazer? Para responder essa pergunta, Stott usa o texto de I Tm. 4:11-5:2, extraindo do texto seis conselhos que o apóstolo Paulo deu a Timóteo, lembrando que Timóteo era jovem e por vezes ele teve que assumir o lugar de Paulo em algumas igrejas, um desafio e tanto para o jovem pastor Timóteo.

Desafio da Liderança Cristã, um pequeno e poderoso livro sobre liderança cristã. A leitura do livro é muito fácil e ao mesmo tempo profunda com muita sabedoria prática para os jovens líderes, como eu. Sem dúvida este livro é altamente pertinente, pois os líderes são constantemente desafiados em relação ao seu compromisso com Cristo, com as pessoas, com a disciplina pessoal e com vários outros pontos que fazem deles bons líderes.

Posso dizer, que aprendi muito com a leitura desse pequeno livro. John Stott nos traz muitas experiências pessoais de ministério que nos desafia a manter nosso foco no poder e na força de Deus, quando somos jovens confiamos muito em nossa própria força e naquilo que podemos fazer e por diversas vezes nos esquecemos que servimos ao Senhor pela força unicamente dEle.

Gostaria de terminar com um verso que me deparei durante a leitura do livro e que foi altamente oportuno para minha vida: “Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos” (II Co. 4:1). Que o Senhor nos conceda a graça de liderar de forma eficaz na dependência do Seu poder. Não preciso dizer que recomendo a leitura do livro.

 

Resenha – Além do Planeta Silencioso

LEWIS, C. S. Além do Planeta Silencioso: Trilogia Cósmica. Trad. Waldéa Barcellos. São Paulo: Martins Fontes. 2010. p 220.

Clive Staples Lewis, ou C. S. Lewis, como é geralmente conhecido. Nasceu em Belfast, Irlanda no dia 29 de Novembro de 1898, e faleceu em Oxford, Inglaterra no dia 22 de Novembro de 1963, uma semana antes de completar 65 anos. Lewis foi professor universitário, escritor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta e apologista cristã. Durante sua carreira acadêmica, lecionou tanto na Universidade de Oxford como na Universidade de Cambridge. Ficou bastante conhecido por seus escritos de apologia cristã, ficção e fantasia. Dentre suas obras mais conhecidas podemos destacar: As Crônicas de Nárnia, Cristianismo Puro e Simples, Cartas de um diabo ao seu aprendiz, O Problema do Sofrimento, Milagres, etc. Além disso, C. S. Lewis, foi um respeitado estudioso da literatura medieval e renascentista, tendo produzido alguns dos mais renomados trabalhos acadêmicos envolvendo esses temas, destacamos: Alegoria do Amor e A Imagem Descartada. Lewis, foi ateu durante muitos anos e se converteu em 1929. Essa experiência o ajudou a entender não somente a indiferença como também a indisposição de aceitar a religião; e, como autor cristão, com sua mente incrivelmente lógica e brilhante, seu estilo lúcido, fez dele um grande pensador, escritor e apologista.

Além do Planeta Silencioso, primeiro livro da trilogia cósmica de Lewis, seguido por Perelandra e Uma Força Medonha. Os livros foram escritos durante os tensos momentos que antecederam a 2ª Guerra Mundial (1938-1945). Pegando esse contexto, na leitura será possível observar um pouco dessa tensão nos personagens humanos, especialmente na pessoa de Weston, pelo seu desejo de sobrepujar as formas inferiores de vida. A Trilogia Cósmica, é mais voltado para o público adulto, diferente das Crônicas de Nárnia, que apesar de, também ser ficção e fantasia, pode ser apreciado tanto por crianças como adultos.

A história gira em volta de uma viagem espacial de três homens: Ransom, Devine e Weston. O personagem principal é Ransom, um filólogo (ao que parece, o personagem foi inspirado no seu amigo, J R. R. Tolkien). Portanto esses três homens seguem viagem para Malacandra, na nossa nomenclatura se trata de Marte, e Ransom é levado involuntariamente para lá, quando acorda percebe que já está no espaço, sem conhecimento algum do que está acontecendo ou para onde está indo, pois seus sequestradores não revelam o plano. Ao chegar em Malacandra ele depara-se com criaturas diferentes do ser humano no seu aspecto fisionômico, porém iguais na inteligência, ou sejam, se tratavam de criaturas racionais, seres pensantes e falantes. O planeta continha três tipos de espécie: hrossa, sorn, pfifltriggi. Cada um diferente na aparência e estilo de vida, porém, todos amigáveis e respeitosos uns com os outros. Por ser filólogo, Ransom conseguiu aprender o idioma malacandrino. Todas as três especies falavam o mesmo idioma, assim a comunicação com os nativos foi bem sucedida. Os Malacandrianos percebem que Ransom é de Thulcandra, (Thulc = silencio; Andra = terra; Planeta Silencioso), na nossa nomenclatura, planeta Terra. Isso deixa os malacandrinos admirados, pois, o planeta Terra é um planeta silencioso, sem comunhão com os demais planetas e eles nunca haviam visto qualquer espécie de Tchulcandra. Assim, Ransom é convocado para conversar com Oyarsa (uma inteligência tutelar de uma esfera celeste), para saber como está o planeta silencioso. Apesar do planeta ser estranho ao filólogo, logo que foi capaz de aprender o idioma, conseguiu comunicar com as criaturas e sentiu-se bem recebido. A princípio, é claro, as criaturas lhe causava terror e incertezas, porém passou a confiar nelas mais do que nos seres de sua própria espécie.

Como falei anteriormente, o livro se trata de uma aventura de ficção científica, e por se tratar de ficção, é bom deixar claro que os aspectos especulativos que são encontrados nas literaturas de Lewis, especialmente nas de ficção e fantasia, são apenas aspectos especulativos, não fazia parte da ortodoxia pessoal do autor. Creio que seja importante pontuar esse tema, pois, por vezes, C. S. Lewis é criticado quanto a sua teologia, por considerarem confusa. Quando seus críticos são questionados quanto a base para suas críticas, eles apontam para os livros de ficção e não para os seus ensaios teológicos. Dessarte, quando Lewis está escrevendo ficção, ele, de fato, está escrevendo ficção e não teologia, apesar de que, mesmo nos seus livros de ficção é possível presenciar diversos elementos cristãos.

Desta forma, gostaria de compartilhar algumas impressões cristãs que obtive ao ler Além do Planeta Silencioso. (1) Quando lemos sobre literaturas de viagens planetárias, normalmente, o enredo gira em torno de homens que saem do seu planeta para outro, ao chegar lá se deparam com diversos monstros e a partir daí travam batalhas com esses monstros para sobreviverem. O enredo de Lewis é diferente, três homens saem do seu planeta, porém, apesar de, encontrarem criaturas estranhas, pelo menos um desses homens percebem que o verdadeiro monstro é o homem, pela sua ganância, crueldade, ódio, malícia, etc. (2) Ransom, o personagem principal, passa a entender que o Planeta Silencioso é o planeta Terra, e por que ela é silenciosa? Algo aconteceu na terra que a fez perder a comunhão com os demais planetas. Todos os outros planetas não conseguiam obter nenhum sinal da terra. Por isso, Malacandra o considerava em silêncio. Na cosmovisão cristã, entendemos que após a queda todo o universo foi atingido pelo pecado, e o pecado trouxe a morte (separação). (3) Todas as espécies em Malacandra falavam apenas um único idioma e viviam harmoniosamente, considerando um ao outro. Em Gênesis notamos o homem querendo tornar seus nomes célebres (superiores), construindo uma torre até os céus e Deus passa a confundir as línguas. O pecado trouxe separação em diversas áreas da vida humana.

Vale muito a pena fazer a leitura do livro. Lewis sempre escreve de maneira muito clara e as informações sobre o relevo do planeta, a flora, o mar, o sentimento dos personagens, etc., são minuciosamente detalhada e por vezes você se encontrará dentro da aventura.

 

Resenha – O Deus que se Revela

SCHAEFFER, Francis A. O Deus que se Revela. Trad. Gabrielle Greggersen. São Paulo: Cultura Cristã, 2007. p. 144.

Francis Schaeffer nasceu no dia 30 de Janeiro de 1912 na Pensilvânia, EUA. Faleceu no dia 15 de Maio de 1984 vítima de câncer. Schaeffer será sempre lembrado como um dos gigantes do século XX. Em um tempo de decadência moral e desumanidade brutal, as obras de Schaeffer falam corajosamente com base nos absolutos de Deus, tais como revelados em Sua Palavra. Opôs-se ao modernismo teológico, chamado de neo-ortodoxia, defendeu uma fé baseada na tradição protestante e um enfoque pressuposicional na apologética cristã. Seus livros foram traduzidos para mais de 25 idiomas com milhões de exemplares vendidos.

O Deus que se Revela (no original, He is there and he is not silent) forma com O Deus que intervém e A morte da razão a trilogia clássica de Schaeffer. O Deus que se Revela trata-se do último livro da trilogia clássica. Segundo o autor, este livro argumenta sobre como podemos vir a saber e como podemos saber o que sabemos. Assim, o autor pondera que o pensamento moderno está fundamentalmente errado em suas posições quanto a como sabemos e o que sabemos. Contrastando com o silêncio e desespero do homem moderno, Schaeffer mostra que podemos de fato conhecer o Deus que intervém porque Ele não está em silêncio.

O livro possui quatro capítulos:
 
1. A Necessidade Metafísica.

O presente capítulo trata do campo da metafísica, do Ser. O problema da existência. Nisso inclui-se a existência do homem, e precisamos dar-nos conta de que a existência do homem não é, propriamente um problema maior do que o fato de que qualquer coisa se quer exista. Schaeffer argumenta que no campo da existência, há somente três respostas elementares que estariam abertas para a reflexão e debate racional.

A primeira resposta seria: tudo que existe se originou absolutamente do nada. Se quisermos aceitar esta resposta, teria que ser nada de nada, o que significa que não poderia haver nenhuma energia, nenhuma massa, nenhum movimento, nenhuma personalidade.

A segunda possível resposta seria: tudo o que existe teve um começo impessoal. Este elemento impessoal pode ser massa, energia, movimento. O dilema dessa resposta é encontrar sentido para os aspectos particulares. O particular pode ser um fator individual, as partes separadas do todo. Uma gota de água é um aspecto particular, assim como um ser humano. Partindo do impessoal, como qualquer elemento particular, incluindo o homem, terá qualquer sentido ou relevância?

A terceira resposta possível: tudo o que existe começou com uma origem pessoal. Pode parecer simplista, mas é verdadeiro. A grande desgraça do homem moderno é que ele não consegue ver o sentido do próprio homem, mas, se partimos de uma origem pessoal, estaremos em uma situação oposta. A personalidade tem sentido porque não está alienada daquilo que sempre existiu, do que existe e do que sempre existirá. “Não é que esta seja a melhor explicação possível para a existência; trata-se da única resposta […] A única resposta possível para tudo o que existe, é que ele, o Deus pessoal infinito, existe.” (p. 54).
 
2. A Necessidade Moral.

Segunda área do pensamento filosófico, o homem e o dilema do homem. Neste capítulo, Schaeffer argumenta que, pelo fato do homem ser pessoal, diferente do não-humano, ele tem a “hombridade” humana (personalidade), que o distingue do não-humano e ainda assim ele é finito. Por ser finito, ele não tem um ponto de convergência suficiente em si mesmo. Portanto, se aceitarmos a origem impessoal, a moral não existe como moral propriamente dita. A moral será somente uma outra forma de metafísica, de Ser. A moral desaparecerá. Se Deus não existisse, não haveria resposta nenhuma para o problema da moral. Existe uma necessidade filosófica tanto na metafísica como na moral, de que Ele exista e que não esteja em silêncio.

 
3. A Necessidade Epistemológica: o problema.

Neste capítulo, o autor apresenta a necessidade da epistemologia, a teoria do método ou a teoria do conhecimento, como chegamos a conhecer ou como podemos ter certeza de que conhecemos. A epistemologia é o problema central da nossa geração, o chamado conflito de gerações é, na verdade, um conflito epistemológico, simplesmente porque a geração atual olha para o conhecimento de uma forma radicalmente diferente das anteriores. Os filósofos gregos empenharam muito tempo lutando com o problema do conhecimento. Quem mais se envolveu foi Platão, ele compreendeu o problema básico, que é o que se encontra no campo do conhecimento, bem como no campo da moral, de que deve haver mais particulares se quisermos que haja sentido. No campo do conhecimento, temos particulares, pelas quais nos referimos às coisas individuais que vem no mundo. Em qualquer momento estaremos nos deparando com milhares de particulares sobre a realidade. O que são os universais que atribuem sentido a esses particulares? Eis o cerne do problema epistemológico e do problema do saber.

 
4. A Necessidade Epistemológica: a resposta.

O autor sustenta que há uma resposta cristã para o problema epistemológico. A alta Renascença apresentava um problema quanto à natureza e à graça, seu racionalismo e humanismo não admitiam nenhuma forma de relação entre a natureza e a graça. Ela nunca foi capaz de dar resposta ao problema, o dilema do século 20, vem daí. De acordo com o pensamento judaico-cristã, acreditamos que existe alguém (Deus) com quem podemos conversar, e que Ele nos transmitiu informações de dois tipos. Primeiro, Ele falou sobre si mesmo, não extensiva, mas verdadeiramente, e segundo, Ele falou sobre a História e o Cosmos, não extensiva, mas verdadeiramente. Sendo assim, o racionalismo não conseguia encontrar uma resposta, mas Deus falando confere a unidade ao dilema da graça e natureza.

Sem dúvida, o livro O Deus que se Revela é altamente pertinente, pois trata basicamente da necessidade filosófica de Deus existir e não estar em silêncio, nos campos da metafísica, moral e epistemológica. Esses são os três campos básicos do pensamento filosófico. Pelo fato de Deus existir e Ele não está em silêncio podemos saber o que sabemos.

O homem moderno procura as respostas ao seu dilema partindo dele mesmo. O homem, por ser finito, não tem um ponto de convergência suficiente em si mesmo. É necessário um ponto de referência infinito para dar sentido e relevância. O Cristianismo tem a resposta para os dilemas do homem moderno, como o autor diz, “não a melhor resposta, mas a única resposta possível para tudo o que existe”. Deus existe e Ele não está em silêncio. Ele se revelou e interveio na História humana, com base nesse conhecimento, podemos encontrar sentido, prazer, propósito e beleza na vida.

Portanto, recomendo a leitura do livro, não somente deste livro, mas da trilogia clássica: (1) O Deus que Intervém; (2) A morte da Razão e (3) O Deus que se Revela, (de preferência nessa sequência). Sem a base do todo dos três livros, fatalmente a leitura de qualquer um deles de forma isolada deixará de atingir em profundidade as suas variadas implicações.

 

Resenha – A Morte da Razão

SCHAEFFER, Francis A. A Morte da Razão. Trad. João Bentes. 2a ed. São Paulo: ABU; Viçosa/MG: Ultimato, 2014. p 103.

Francis Schaeffer nasceu no dia 30 de Janeiro de 1912 na Pensilvânia, EUA. Faleceu no dia 15 de Maio de 1984 vítima de câncer. Schaeffer será sempre lembrado como um dos gigantes do século XX. Em um tempo de decadência moral e desumanidade brutal, as obras de Schaeffer falam corajosamente com base nos absolutos de Deus, tais como revelados em Sua Palavra. Opôs-se ao modernismo teológico, chamado de neo-ortodoxia, defendeu uma fé baseada na tradição protestante e um enfoque pressuposicional na apologética cristã. Seus livros foram traduzidos para mais de 25 idiomas com milhões de exemplares vendidos.

A Morte da Razão é o segundo livro da trilogia clássica de Francis Schaeffer. O livro explica o que realmente levou a sociedade atual abandonar a capacidade de pensar racionalmente na busca pela verdade, colocando no lugar da razão as emoções e experiências como o árbitro daquilo que é verdadeiro. O que vale hoje é o que estou sentido no coração, o que me deixa feliz. Isto é visto nas músicas, cinemas, televisão e infelizmente nas igrejas. A razão deixou de ser importante para dar lugar as experiências ou aquilo que mexe com minhas emoções.

Como tal ideologia adentrou nas igrejas, a mensagem do Evangelho também foi contaminada com essa maneira de pensar. Muitos cristãos tem apresentado um evangelho com pouco ou nenhum conteúdo, porém cheio de símbolos e emoções: “Jesus te ama”, “Deus me revelou que quer fazer uma grande obra na sua vida”. Assim, A morte da razão nos ajuda a compreender o modo de pensar da sociedade atual para podermos comunicar a verdade imutável a um mundo de mudanças.

O livro possui sete capítulos:

1. Natureza e Graça.

Schaeffer inicia com o ensinamento de um homem que transformou o mundo de modo muito real. Tomás de Aquino defendia que a vontade do homem está decaída, mas o intelecto não. A partir dessa noção incompleta do conceito bíblico da queda resultaram todas as dificuldades que vieram depois. O intelecto humano tornou-se autônomo. Um dos exemplos dessa autonomia foi o desenvolvimento da teologia natural. Uma teologia que se poderia formular a parte das Escrituras. Da mesma forma, a filosofia, separando-se das Escrituras. O mesmo aconteceu no mundo da arte.

2. Uma unidade de Natureza e Graça.

Este capítulo mostra que a filosofia de Tomás de Aquino apresentou um dualismo no homem pós queda. Contudo a Reforma rejeitou essa teologia e abraçou a noção bíblica de uma queda total da natureza humana, inclusive a vontade e intelecto. O dualismo no homem renascentista trouxe à tona as modernas formas de Humanismo, com as misérias e os sofrimentos do homem moderno. Contudo a Reforma dava a única resposta adequada ao dilema humano.

3. A Ciência moderna nos primórdios.

Neste capítulo o autor fala que a ciência moderna, em seus primórdios, foi o produto daqueles que viveram no consenso e cenário do Cristianismo. O Cristianismo era necessário para o começo da ciência moderna pela simples razão de que o Cristianismo criou um clima de pensamento que colocou o homem em posição de investigar a forma do universo. O Cristianismo outorga a certeza da realidade objetiva e de causa e efeito, certeza suficientemente sólida para que sobre ela se assente o fundamento do saber.

4. O Salto.

Aqui Schaeffer apresenta o homem moderno como morto. O homem moderno não tem significado, propósito ou sentido. Há apenas pessimismo quanto ao homem como homem. Para fugir do pessimismo, o homem moderno dá um salto de fé não racional em busca de otimismo. O homem é forçado ao desespero desse salto porque não pode viver como uma simples máquina.

5. A Arte como salto no andar superior.

Neste capítulo o apologista usa a arte moderna como uma ilustração da tensão do homem moderno, que por sua vez proporciona uma explicação parcial para o fato curioso de que muito da arte contemporânea, como expressão própria do que é o homem em si, é feia. O homem criado a imagem e semelhança de Deus é maravilhoso, porém sua presente condição é caído e ao tentar expressar a liberdade a seu próprio modo autônomo, muito de sua arte, ainda que não o todo, torna-se feio e desconstituído de qualquer sentido.

6. Loucura.

Os herdeiros do iluminismo tinham prometido que proveriam uma resposta unificada com base no racional, porém eles não cumpriram essa promessa. Eis a razão para os artistas loucos e semiloucos da era moderna. Em outras palavras, os racionalistas não descobriram nenhuma espécie de unidade nem qualquer esperança de solução racional. Assim, para o homem moderno, o polo final em liberdade autônoma é ser doido. Coisa excelente é ser doido, pois significa ser livre.

7. Racionalidade e Fé.

Neste capítulo Schaeffer lista algumas consequências ao lançar a fé contra a racionalidade. (1) O conceito de moral é excluído; (2) Não há base adequada para a lei; (3) O problema do mal fica sem solução e (4) Se torna impossível compartilhar a mensagem do Evangelho a outro. O Cristianismo tem, portanto, a oportunidade de falar claramente que a resposta que oferece encerra exatamente aquilo de que se despertou o homem moderno – a unidade do pensamento. É verdade que o homem terá que renunciar a seu arraigado racionalismo, mas, com base no que se pode discutir.

O livro é altamente pertinente para os nossos dias. Vivemos em uma geração na qual a verdade objetiva é tirada de cena e colocado o subjetivismo. Isso acaba dificultando a comunicação do Evangelho para nossa geração. Por essa razão, é de grande importância sabermos proclamar a verdade do Evangelho neste mundo que é tomado pelo relativismo.

A razão pela qual muitas vezes não podemos falar a nossos filhos, muito menos aos filhos dos outros, é que jamais nos demos ao trabalho de ponderar o quanto suas formas de pensamento são diferentes das nossas. […] Em áreas cruciais, muitos pais, ministros e educadores cristãos estão, hoje, tão fora de sintonia com numerosos contingentes de filhos da própria igreja e com a vasta maioria que não pertencem a ela, que é como se estivessem falando uma língua estrangeira. Concluímos, pois, afirmando que o que se diz neste livreto não é uma simples matéria de debate intelectual. Não é algo que deva ser de interesse puramente acadêmico. É assunto decisivamente crucial para aqueles dentre nós que nutrem o sério propósito de comunicar o evangelho cristão neste século 21. (p. 103).

Portanto, recomendo seriamente a leitura deste livro para que possamos nos equipar a fim de comunicar a fé cristã de modo eficiente. Para que isso seja feito, é necessário conhecer e entender as formas de pensamento de nossa geração. Só poderemos compreender as tendências atuais do mundo do pensamento se visualizarmos a situação segundo sua origem histórica.

Que o Senhor nos ajude e nos capacite a proclamarmos de forma nítida o plano amoroso do Senhor na salvação de perdidos!