ALBUQUERQUE, Tiago. Graça Inglória. Brasília: Editora 371, 2019.

O livro “Graça inglória”, do pastor Tiago Albuquerque, apresenta uma heresia que, aparentemente, parece boba e de desnecessária preocupação, porém tem sido repetida ao longo dos séculos e de diversas maneiras: é a salvação universalista. O pastor mostra o porquê de alguns teólogos, desde o século III até hoje chegarem a tal conclusão teológica e, o mais preocupante, o porquê de ela ter ganhado tanta força na contemporaneidade. Por fim, ele vai mostrar a sua insustentabilidade diante de uma análise bíblica não-superficial das Escrituras.

A obra é dividida em quatro partes, sendo o seu conteúdo organizado em duas grandes partes. Ela inicia por uma breve introdução e em seguida, a primeira grande parte vai tratar de várias vertentes do universalismo antigo e moderno, a segunda grande parte, onde o autor apresenta uma análise da Soteriologia nos escritos joaninos, culminando numa conclusão na qual é apresentado a importância da existência de uma punição eterna na mensagem do evangelho.

Na primeira grande parte há três capítulos. no primeiro, Albuquerque inicia apresentando um panorama histórico do universalismo, começando por Orígenes, no século IV, concluindo com René Kivitz e Rob Bell, no século XXI. Nessa parte, ele quer mostrar que há diversas formas de universalismo.

O segundo capítulo descreve com mais detalhes como Orígenes e Gregório de Nissa chegaram à conclusão do universalismo. De maneira muito bem elaborada, Tiago mostra que Orígenes, na tentativa de responder aos pagãos que questionavam a fé cristã, como Celso, desenvolve seu universalismo em resposta à questão: “Como um Deus pleno de amor, misericordioso e bom ode enviar pessoas ao inferno?” Embebido em platonismo, a resposta de Orígenes é, grosso modo, que todas as mentes (seres humanos e celestiais) estavam em Deus. A queda gerou a criação material (tudo que existe no mundo sensível é fruto da queda), e a restauração final vai unificar tudo novamente, para que “Deus seja tudo em todos”. Já Gregório entende que o bem, que é oriundo em Deus, é eterno. Já o mal não pode ser eterno. Assim, o homem caído, que anda nos caminhos do mal, não poderá andar neste caminho eternamente, pois tal caminho é limitado, por não ser eterno. Assim, chegará um momento em que todo ser inteligente trilhará o caminho da virtude, inclusive satanás e seus demônios.

O terceiro capítulo da primeira grande divisão do livro mostra a base do universalismo pós-moderno, contemporâneo nosso, e, sendo a teologia influenciada por esse pensamento, o universalismo de nossa época repousa sobre bases pós-modernas: (1) pluralismo – não existe uma única forma de fé, mas uma pluralidade, e todas elas são válidas (budismo, xintoísmo, cristianismo, islamismo e etc). (2) ênfase emocional – há um apelo ao atributo do amor de Deus. Um Deus amoroso não condenará ninguém a um estado de castigo eterno. (3) A atual conjuntura missionária – existem religiões, como o islã, que vem se expandindo de forma gigantesca, o que leva a pensar que o cristianismo não é exclusivo. Deus tem usado outras formas de fé. É preciso juntar todas num “bolo” só (ecumenismo).

Na segunda grande parte do livro, há mais três capítulos. O primeiro deles apresenta uma análise exegética da temática da incredulidade que João apresenta em seu evangelho. O autor mostra que João apresenta a incredulidade como algo ativo, e não passivo. O incrédulo é aquele que não aceita o que foi revelado pelo Verbo encarnado (1.11), pois ele quer condicionar a fé salvadora a suas próprias condições, permitindo que seus pecados não sejam tocados. João é exclusivista em ensinar que a fé salvadora é a aceitação do que Jesus reivindicou ser, o que promove uma dedicação radical da vida em devoção a Ele. Assim, a condenação é fortalecida na rejeição da Luz (3.19), no afastamento dela e no ódio contra ela.

O segundo capítulo apresenta um “ABC” da vida eterna. Albuquerque quer fazer uma crítica a ideia da tolerância cristã pós-moderna de que todos estão caminhando para o céu. Ele mostra que João, em sua primeira carta, quis apresentar um teste criterioso para identificar crentes verdadeiros de crentes falsos, com a finalidade de dar certeza aos verdadeiros crentes de que eles possuíam a vida eterna. Assim, o apóstolo indica um teste moral no qual a santidade, ou o “andar na luz” é evidência de um autêntico cristão (1.5); um teste social, onde averígua a relação entre o cristão e seus irmãos (4.20); e o teste doutrinário, que declara genuíno cristão o que reafirma as verdades consolidadas. Os falsos são os que discordam (2.18, 22; 4.3).

O terceiro capítulo da segunda grande divisão da obra, o qual também é o último do livro, apresenta uma defesa da expiação limitada no evangelho de João como sendo um ataque ao universalismo. Assim, o autor defende que a expiação é algo extremamente necessário porque o perdão divino não pode ser concedido ao pecador sem base que a justiça divina tenha sido satisfeita; essa expiação é eletiva, na obra joanina: Deus decidiu salvar alguns por meio da morte de Cristo, os quais, em João 10, são chamados de “um rebanho”, as ovelha pelas quais o pastor deu a sua vida.

Da minha ótica, a obra é de extrema importância para nossos dias, não só por ser um ataque a uma heresia recorrente, mas também porque temos em nós uma grave deficiência de compreensão de como o mundo pensa. As sutilezas do universalismo, regadas por uma cativante retórica de seus disseminadores atuais, podem ser cativantes a uma mente embebida dos conceitos, de forma inconsciente, da pós-modernidade.

A exegese feita nos textos de João é fenomenal. O autor argumenta com base na compreensão da ideia do texto, e isso é importante para os que querem defender apoiados na voz das Escrituras. Por meio dessa característica ele afronta, indiretamente, a forma vazia e ideologizada que os teólogos pós-modernos fazem do uso da linguagem teológica.

Enfim, o livro é simplesmente ótimo. Além de apresentar uma leitura cativante (apesar de não ser narrativa), um desenvolvimento lógico entre seus capítulos e um conteúdo muitíssimo válido e enriquecedor para nossos dias, nos quais o conhecimento doutrinário tem sido desincentivado.

Pr. Francisco C. de O. F. Neto