STOTT, John. As Controvérsias de Jesus. Trad. Valéria Lamim Delgado Fernandes. Viçosa/MG: Ultimato. 2015. 199 p.

John Robert Walmsley Stott, mais conhecido como John Stott. Nasceu na cidade de Londres no dia 27 de Abril de 1921 e faleceu em Julho de 2011. Stott foi pastor e teólogo anglicano, conhecido como um dos grandes nomes mundiais. Serviu como pastor na Igreja All Souls em Londres desde 1950. Estudou na Trinity College Cambrigde, onde se formou em primeiro lugar da classe tanto em francês como em teologia, e foi doutor honorário por várias universidades, na Inglaterra, Estados Unidos e Canadá. Uma de suas maiores contribuições internacionais são seus livros. Stott começou sua carreira de escritor em 1954, publicando mais de 40 livros e centenas de artigos, além de outras contribuições à literatura cristã. Sua obra mais importante, Cristianismo Básico, vendeu mais de 2 milhões de cópias e já foi traduzida para mais de 60 línguas. Billy Grahanm o chamou de “o mais respeitável clérigo no mundo hoje”.

No livro As Controvérsias de Jesus, John Stott não tem a intenção de mostrar Jesus como uma figura controversa, mas que Ele participava de controvérsias. Grande parte dos discursos públicos de Cristo assumiu a forma de debates com os líderes religiosos da época. O objetivo de Stott no presente livro é afirmar que o cristianismo evangélico é o cristianismo real, autêntico, verdadeiro e original, o autor mostra isso segundo o ensino do próprio Jesus Cristo.

Na primeira seção do livro o autor separa dois capítulos introdutórios, chamados de “Fundamentos”. No primeiro capítulo, o autor defende a busca de uma definição teológica. O mundo não cristão está impregnado do discurso pragmático e, consequentemente, está cansado do modo pouco prático de teologizar usado pela igreja. O mesmo discurso prevalece em algumas áreas da igreja atualmente. Muitos abandonaram a esperança de certeza e de acordos doutrinários. Stott desenterra as raízes dessa hostilidade à definição teológica e argumenta que não devemos abandonar, mas insistir na tarefa.

No segundo capítulo da seção “Fundamentos”, Stott argumenta em favor do cristianismo evangélico. Ele enfatizou a necessidade de um definição teológica e agora insiste que ela deve ser feita de modo evangélico. Seu interesse é a posição doutrinária adotada pelos cristãos evangélicos. As doutrinas que adotamos é conhecida como fé evangélica. Stott acreditava que essa fé é a verdadeira fé de Cristo, como ensinou aos seus apóstolos e como a defendeu dos adversários.

Depois da seção introdutória, o autor desenvolve oito capítulos com controvérsias que Jesus participou com os líderes religiosos da época e um pós-escrito enfatizando que Jesus é nosso Mestre e Senhor e, portanto, o que Ele ensinou e defendeu continua sendo relevante para nossos dias. Listamos os oito capítulos.

1. Religião: natural ou sobrenatural? – A primeira controvérsia que o autor aborda é uma pergunta dos saduceus sobre a ressurreição. Stott enfatiza que essa questão é fundamental para hoje, pois não questiona apenas se a religião cristã é natural ou sobrenatural, mas que tipo de Deus é o do cristão.

2. Autoridade: tradição ou Escritura? – Neste capítulo o autor destaca a controvérsia de Jesus com os fariseus, onde eles censuram os discípulos de Jesus por estarem comendo com a mão por lavar, ou seja, cerimonialmente impuros. Jesus critica os fariseus porque as tradições deles anulavam a Palavra. No capítulo anterior Jesus criticou os saduceus por fazer subtrações das Escrituras, agora Jesus critica os fariseus por fazer acréscimos. Praticas igualmente perigosas.

3. A Bíblia: meio ou fim? – Neste capítulo o autor desenvolve a principal função das Escrituras, pela qual Deus deu ao seu povo. Stott desenvolve mais uma controvérsia de Jesus com os fariseus. “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito, contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida.” (João 5:39-40 NVI). É certo que Jesus em vários momentos exaltou as Escrituras, entretanto, Ele também nos alertou para a possibilidade de exaltá-la de forma exagerada a ponto de tornarmos “bibliólatras”, agindo como se as Escrituras, e não Cristo fosse o objeto de nossa devoção. O propósito divino das Escrituras é apontar e levar as pessoas a Cristo.

4. Salvação: mérito ou misericórdia? – Cristo trata deste tema em outra de suas controvérsias com os fariseus. Anteriormente Cristo os acusou de anularem a Palavra de Deus, através das tradições que eles mesmos transmitem. Aqui, Jesus os criticam por serem eficientes em anular a obra divina de redenção, tinham uma confiança exagerada em seus próprios méritos. A crítica de Jesus é expressa explicitamente na parábola do fariseu e do publicano.

5. Moralidade: exterior ou interior? – O que nos deixa limpos ou impuros aos olhos de Deus? Pergunta muito importante e a resposta dada pelos fariseus é muito diferente daquelas dadas por Jesus Cristo. Essa é uma área de controvérsia ainda hoje, assim o autor procura descobrir se a discussão de Cristo com os fariseus, onde eles censuram os discípulos de Jesus por estarem comendo com a mão por lavar, lança alguma luz sobre o debate contemporâneo. Os fariseus eram obcecados com o ritual de purificação – mãos limpas, alimentos limpos, vasilhas limpas. Jesus porém enfatiza que a moralidade é essencialmente interior.

6. Adoração: de lábios ou de coração? – A Bíblia nos diz que que há adorações repugnantes a Deus que Ele as odeia e as rejeita. Nesta controvérsia Jesus critica os fariseus não pela prática da adoração em si, mas contra sua qualidade exterior, seu formalismo e hipocrisia: “Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim” (Mateus 15:7-8). Neste capítulo o autor desenvolve as características de uma verdadeira adoração.

7. Responsabilidade: afastar-se ou envolver-se? – Neste capítulo o autor desenvolve qual seria a verdadeira responsabilidade da igreja para com o mundo. Que atitude os seguidores de Jesus deveriam ter para com aqueles que não o seguem? Desprezá-los, evitá-los, condená-los? Mais uma controvérsia de Jesus com os fariseus onde eles criticam Jesus por se juntar com pecadores. “Aproximavam-se de Jesus todos os publicanos e pecadores para o ouvir. E murmuravam os fariseus e os escribas, dizendo: este recebe pecadores e come com eles” (Lucas 15:1-2).

8. Ambição: a nossa glória ou a de Deus? – Os motivos ocultos desempenham um grande papel em nosso comportamento. Neste capítulo, John Stott desenvolve mais uma controvérsia, onde Jesus expõe o desejo dos fariseus de receber a glória (aprovação) dos homens e desprezar a aprovação de Deus. Há um grande perigo de cairmos nesse mesmo pecado. O desejo humano pela glória é uma forma séria de pecado, pois nega a Deus sua glória como Criador e Juiz.

As Controvérsias de Jesus. Um livro simples, porém profundo e pertinente. Vivemos em período de pluralismo filosófico no qual sustentar nossas convicções em relação à verdade evangélica está cada vez mais difícil. Dentro do próprio ambiente cristão, a perda da centralidade de Cristo e do conhecimento bíblico é típico dos grandes desafios que confrontam a saúde e o crescimento da igreja.

Ler este livro tem sido animador, pois a imagem popular de um Jesus manso, suave e tranquilo não funciona. Sem dúvida, Jesus foi amoroso, mas não hesitava quando era necessário expor o erro e denunciar o pecado, especialmente a hipocrisia. É claro, isso não é uma justificativa para sairmos por aí debatendo, condenando e apontando os pecados das pessoas, mas, sim devemos nos manter firmes naquilo que Jesus Cristo ensinou e defendeu. O ambiente que vivemos hoje é hostil e paradoxal, financiam milhões na busca pela verdade, mas perseguem os que a proclamam. Diante disso devemos nos manter firmes e defender os ensinamentos de Jesus Cristo.

Portanto, indico a leitura deste livro para todos os cristãos e não cristãos. Leitura bastante edificante! Vale muito a pena lê-lo.